quinta-feira, 20 de novembro de 2008

...E

E...
..tenho saudades vossas...do frio, tenho saudades do frio, de andar de cachecol e luvas, de beber chocolate quente, de ir ao cinema, de comer pipocas, da minha irma, de andar de metro, de ir ao café à noite, de ver o nosso mar, de dançar dançar dançar, dos meus amigos...

Mas é mesmo bom sentir saudades!...e sentir que aqui nao tenho tudo o que quero ou quando quero.
PLUS: Aqui há borboletas em todo o lado...e sempre!!

**

DIAS NORMAIS

Ola! Escrevo so para dizer que vou começar com o curso de portugues na proxima semana. As aulas de catequese começam esta sexta feira. E vou ajudar o Pe Felgueiras a organizar o arquivo de fotografias dos 25 anos de guerra em Timor. O arquivo é um verdadeiro tesouro arrumado em caixotes, é dos poucos testemunhos da guerra, dos massacres, da esperança, da paz e da fé deste povo. Sou uma previligiada por poder participar neste trabalho! O calor aperta, é cada vez maior, agora que a época das chuvas começa...e chove dentro da nossa cozinha!! :)...Se fosse tudo bom, nao estaria em missao!...Continuo bem :).

Mil beijinhos*

12 DE NOVEMBRO

Esta semana celebrou-se o 12 de Setembro, em Dili. Neste dia, em 1991 aconteceu o massacre de Sta Cruz. As tropas indonesias mataram mais de 200 jovens timorenses, no cemiterio de Santa Cruz, perto de Balide, o bairro onde vivemos. Estes pequenos grandes meninos sao considerados herois, porque foi gracas a esta tragica batalha, tao desiquilibrada e tristemente necessaria, que se conseguiram enviar para o mundo, filmes e fotografias de falsas harmonias e de uma paz que nao existia. Um trabalho heroico foi seguido de imediato. Alguem levou o material fotografico, em seguranca, para fora de Timor, sem que caisse nas maos dos indonesios. Muitos vao-nos contando quem o fez, como o fez. O facto é que chegou, e é graças a mais um heroi que Timor conseguiu a tao desejada independencia.
Agora, este dia é apenas recordado e celebrado em Dili, mas muitos fantasmas pairam ainda no ar.
A nossa querida Tia Amada esteve la nesse dia e fez parte do grupo de vozes que se ouvem por detras dos gritos e dos tiros, a rezar em portugues. Algumas senhoras e criancas rezavam dentro das duas capelas do cemiterio de Sta Cruz. E faziam-no com imensa voz e fé, sem dar espaço para intervalos bruscos ou investidas fatais. Por isso mesmo, e por se terem tornado sobreviventes do massacre, receberam das maos do povo timorense, uma medalha de coragem. A tia Amada mostrou-me a dela, radiante por se recordarem dela desta forma, e por sentir que agora carrega um pequeno tesouro. Acho que nunca chegarei a saber o que ela realmente sentiu naquele dia, quando as tropas finalmente chegaram ao interior da capela e se prepararam para disparar sobre todas as pessoas que la estavam dentro. Quando estavam prestes a faze-lo, entrou o comandante e ordenou que nao se matassem as mulheres. Um minuto depois e teria sido fatal. O que vamos ouvindo quando nos contam historias sobre os 25 anos de invasao, faz-nos tremer de medo. O que este povo viveu de humilhacoes, tragedias, massacres e terror, é dificil so de ouvir, mais dificil ainda de compreender e impossivel de imaginar. Mas esta presente em cada pedaço da vida de cada um, mais velho ou mais novo, e isso respira-se todos os dias. A tensao e o medo acompanham-nos, quase como se fossem pequenas tatuagens, em sitios discretos do corpo, sempre presentes, à vista de todos e de ninguem. E as tatuagens ficam para sempre.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

NO CAMINHO PARA CÁ

Hoje a minha tarde acontece sozinha e passa quase sem eu dar conta.
Saí de casa com uma folha cheia de recados numa mão. Na outra, a chave do jipe LD.
Fui buscar a radiografia do Tio António ao hospital (está com uma bronquite crónica), e vim à embaixada para marcar reunião com o Embaixador e com os professores da cooperação.
No caminho, uma menina chorava desesperada na berma da estrada. Como estava sozinha, parei o jipe e fui comprar-lhe uma garrafa de água. Com o meu português e com o tétum dela, percebi que o irmão tinha acabado de morrer. Aqui foi fácil parar o carro e o tempo. A minha folha cheia de recados ficou dentro do jipe e as chaves também.
Acho que a dor de perder alguém tão querido é tão forte cá como aí e, por mais que se tente, não se exprime nem em português, nem em tétum, nem em língua nenhuma. Dói e pronto.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

MY DANCING FEET







Estive a andar de baloiço, à noite, depois da chuva.
Ela veio, caiu e molhou. Eu quase voei.
Senti o vento, os meus pés dançaram no ar.
Fiquei perto da árvore grande, depois longe.
Depois perto, depois longe.
Perto e outra vez longe.
O baloiço é um recorte de ferro, que assenta num cilindro a meio.
O meu cabelo contou as minhas histórias à velha árvore.
Pensou que era livre, que estava solto e contou-lhe os meus segredos.
A velha árvore é grande, muito grande e mora mesmo ao meu lado.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

PRINSEZA











Adorava que pudessem ouvir o hit de Timor, 'Prinseza'!!
É uma musica linda que se ouve em todo o lado, nas festas, na rua, no jipe e aqui onde estou agora, no Centro.
Vou começar a dar aulas de português amanha, e a Ludoteca abriu na segunda-feira...
Já sei os nomes de muitas crianças: Amika, Maria, Kaka, Canino, Ito, Amadu, Nicola, Ato. E elas já sabem o meu, Joana.

Mil beijinhos*

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

YES. I LIKE PAKISTAN

Ontem fomos à praia, para lá do Cristo Rei. No caminho, passamos pela casa do presidente. Tem um muro à volta, que é branco, muito branco.
A casa não é de cimento, nem betão, nem tijolo. É de madeira.
Não fica ao pé do mar, nem na montanha. Fica entre.
O muro branco não a esconde, nem a revela por inteiro. Delimita.
Os seguranças não parecem bons, nem maus. Sorriem, de Kalashnikov nos braços.
E nós sorrimos também, muito...

Um deles pergunta-me se eu sou do Paquistão. Eu digo 'não, sou portuguesa'.
Ele pergunta novamente se eu sou do Paquistão, porque pareço do Paquistão.
Eu repito ' não, sou portuguesa'. Quando ele insiste de novo, volto a repetir pela terceira vez:
'Sou de Portugal'.
Ao que ele diz: 'PaKistan is really beautiful, don't u like Pakistan?'
Ao que respondo: 'Yes, Yes, I love Pakistan!!!'.

E pronto, ficou a frase do dia. Ele ficou feliz, e nós também!