domingo, 7 de dezembro de 2008

CARIMBOS A PRETO E BRANCO












Hoje trabalhei a Zexi, a Di, a Titi e a Dulcita.
Trabalhei, porque não fotografei apenas.
Desenhei as quatro.
Registei, gravei, revelei-as no meu Caderno de Capa Preta, com quatro lápis diferentes.
Agora, também são carimbos a preto e branco..e poderei repeti-las onde entender.

O MEU PAI É MELHOR DO QUE O TEU


Porque canta, porque fala muito, mas conversa bem.
Porque vive à seria, e ai de quem se atravesse no caminho.
Porque trabalha e constrói o que imagina, literalmente, com as próprias mãos.
Porque adora a terra e a terra o adora a ele.
Porque desconfio que quase nunca se cansa.
Porque faz acontecer e não se encosta a ninguém.
E é por tudo isto que tenho a certeza de que um pai como o MEU, mais ninguém tem!!!

PARABÉNS pelo dia de hoje!!
Já agora, e de uma forma nada interesseira, aproveito para dizer que para o conhecerem,
só precisam de fazer uma reserva num dos mais bonitos refúgios do Douro:
www.quintadasheredias.com

E ainda recebem um bónus extra: tb conhecem a minha mãe, uma verdadeira força da Natureza!...:)
(mas isto é só se copiarem este endereço e o reenviarem para 14 dos vossos contactos, ate à meia noite do dia 7 de Dezembro..)
Mil beijinhos aos dois**

domingo, 30 de novembro de 2008

QUERIDOS ARQUITECTOS:


A Arquitectura que espere.


CAIXA










O tema da peça revela-se de imediato no titulo: A Caixa, e a Carolina explica:
" Caixa representa genericamente a grande caixa universal que é o mundo com as suas pequenas e múltiplas caixas: os países, os lugares dentro dos países, as pessoas dentro dos lugares. Esta caixa também é o corpo, a cabeça e o coração. Uma caixa que pensa, sente, guarda, interioriza, memoriza, projecta futuro, ilude-se, imagina e evolui. Uma caixa que se transmuta. Uma caixa que, simultaneamente individualiza e socializa. Uma caixa que abre lentamente, para se (se) comunicar."

O premio Nobel da paz, o Presidente Ramos-Horta , faz o discurso de abertura.
E começa a peça. Uma historia encenada e dirigida pela Carolina Rodrigues, uma actriz portuguesa que veio passar um mes a Timor, com o objectivo de desenvolver um workshop de teatro com as crianças e os jovens do CJPAV (Centro Juvenil Padre António Vieira). O Instituto Camões, em parceria com o CJPAV financiam e promovem. O sucesso do projecto garante o regresso da Carolina em Janeiro, pelo menos por mais seis meses.
A Historia é contada por treze timorenses. Os ensaios encheram o espaço criança do Centro durante três semanas e foram sérios, atentos e expectantes.
No dia 28, o actor principal, o Gui, entra em palco com uma pequena Caixa de madeira nas mãos. Ate ao final, permanece assim. Os outros actores misturam-se no palco, em sons , ritmos e gestos que representam, dramatizam, questionam e aproximam. Mas só um consegue, no final, comunicar com o Dono da Caixa. Porque admitiu ter também uma Caixa, ainda que invisível.
A peça fala de muita coisa e de quase nada, deixa margem à descoberta. Não esgota sentidos ou significados.
E cada um encontrou nela, aquilo que quis.

sábado, 29 de novembro de 2008

28 DE NOVEMBRO

Hoje celebra-se em Dili, o dia da proclamação da Independência, em 1975, que antecedeu a invasão indonésia. Houve festa no Palacio do Governador e ouviu-se fogo de artificio, em toda a cidade. Acho que as vezes o povo nao sabe se neste dia ha-de rir ou chorar...mas ja se habituou à confusao de sentimentos.
Aqui, a alegria e a tristeza andam sempre de maos dadas.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

MAGIA QUE NAO SE VE



Sempre que percorro as ruas esburacadas e poeirentas do nosso bairro, a caminho do centro ou da escola, mil imagens de alegria entram no meu coração. não é possível descrever o que somos capazes de sentir quando estas crianças, que brincam na rua, sorriem. A alegria delas é genuína, transparente e não parece transportar nunca sinais de pobreza interior. A miséria exterior, aquela que se avalia, critica, que facilmente transborda o limite do visível e que serviu de noticia no "Publico" desta semana, argumentada, estruturada e definida, essa vê-se por todo o lado, a toda a hora e não é falsa nem finge existir. Transpira-se em Dili, em Baucau, em Maubara, em Dare, em Bazartete e nos amplos "entres". Mistura-se com o suor que o sol insiste arrancar do nosso corpo e constitui, sim, parte da realidade timorense. Não desminto.
Sim, é verdade que é impossível conduzir o jipe numa linha recta, ainda que a estrada seja também ela recta, devido aos buracos, marcas e cicatrizes deixadas pelas lagartas dos tanques.
Sim, é verdade que a cidade se confunde com o chão, se as casas que se levantam hoje são feitas de pedaços de chapa que enferruja e madeira que apodrece.
Sim, é verdade que o passado é recente e que muito trabalho esta ainda por fazer, senão quase todo, que os muitos edifícios brancos das cidades, são apenas restos de contentores de vidas queimadas ou vazias, como se a guerra não quisesse abandonar nunca este povo.

Mas encontra-se magia em cada pequeno detalhe, em cada flor no caminho (que agora é símbolo de vida), em cada uniforme de escola ou colégio lavado com o esforço de mães empenhadas e atentas, em cada vendedor de rua carregado de sonhos e esperança, em cada sorriso, gesto ou palavra de qualquer timorense que passa por nos, em cada senhora, que caminha com uma dignidade rara de se encontrar, em cada velho de cabelo grisalho que, apenas com o olhar, promete lições sabias e enriquecedoras, em cada pedaço desta terra! Encontra-se esperança na voz das crianças, na ambição insegura mas corajosa dos jovens.
Confesso que comecei sendo mera figurante deste cenário, e acabo por me ir projectando nele. Descubro todos os dias, alguma coisa em mim, por viver no meio de toda esta simplicidade que se diz provisória, mas que insiste em ficar para sempre. É impossível não testarmos a nossa resistência física e psicológica todos os dias.
No meio desta "...versão apenas ajardinada da favela...", descrita pelo jornalista Pedro Rosa Mendes, sinto-me mais perto de mim. Que importa se quem olha de fora, não vê. Esta fora, e não vê!
Vou descobrindo quem sou, no meio desta gente tão querida, que sofreu tanto e vive de forma tão delicada e agradecida. E aprendo a viver como eles, sem criticar ou julgar, mas ajudando com o que tenho e o que sou. E dando tempo acima de tudo. Como se espera que a esperança se reconstrua em 9 anos? Como se apagam todas as tentativas de reconstrução que foram existindo entretanto, para logo se seguida serem destruídas? Como se espera que o povo actue, se não tem dois anos seguidos de paz, desde a época da invasão ate agora? E como é possível descrever a situação de um povo como ESTE povo, se não se fala dele, se se da azo a que comentários absurdos, sem consequência ou sequer testemunho vivido, sejam feitos contra ele?

Estou indignada.
Deixo-vos uma pequena parte do livro-reportagem que estou a ler, da jornalista brasileira Rosely Forganes, essa sim, verdadeira correspondente de guerra, que esteve em Timor em 1999, durante o massacre que seguiu o plebiscito.

" O primeiro barco marca uma nova etapa no repatriamento dos refugiados, 1500 pessoas vão chegar hoje, vindas do Kupang, no Timor Oeste, onde fica a maior parte dos campos controlados pelas milícias. O cais esta vazio. só os militares e os jornalistas tem acesso ao local. O dia ainda esta amanhecendo e já avistamos o barco, um navio enorme, com vários andares. Centenas de refugiados estão no convés, cantando a musica que foi uma espécie de hino da resistência nestes anos todos: "Oh eh eh eh, Oh eh eh ah..." marca o refrão. Eles dão vivas ao Timor Lorosae, à resistência, à reconciliacao, à paz, à independência, ao retorno a casa. E voltam a cantar a mesma musica.
Nesse momento, um soldado australiano sai do hangar e avança sozinho ate a ponta do cais, deserto a essa altura. De frente para o barco, que esta quase chegando. Na luz cor-de-rosa da manha, uma dessas auroras que só o céu de Timor é capaz de colorir, ele empunha a gaita de fole e começa a tocar a Valsa do Adeus. É algo totalmente irreal. Os refugiados no barco param de cantar, militares, jornalistas, todos parecem pregados no chão e imóveis enquanto a melodia ecoa na manha transparente. É como se o tempo tivesse parado. Quando a musica acaba, todos levam alguns segundos para sair da imobilidade. O cais e o barco irrompem em aplausos.
Quem diria, mesmo uma guerra tem momentos de absoluta magia!!"

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

VISITA DE ENFERMEIRO


No dia 29 de Outubro, fomos com o irmao Ornellas, fazer uma visita aos postos na montanha. O Irmao Ornellas ja tem alguma idade, é açoreano e enfermeiro em Timor há muitos anos. Foi 'companheiro de guerra' do Pe Joao Felgueiras e Pe Jose Martins, que sao dois padres jesuitas portugueses, de entre os poucos sobreviventes da guerra. As estradas, as curvas, os buracos que sao precisos vencer, nas nossas idas à montanha, fazem-nos tremer dentro do jipe, mas nada disfarça a nossa concentraçao atenta, enquanto o Irmao fala. E fala de muita coisa, de uma forma simples e serena, porque a pressa nao acrescenta muito mais. Eu queria poder ouvir tudo e transformar-me as vezes em gravador fiel, mas recorro à maquina fotografica, opçao video, para conservar o essencial. A memoria nao perdoa. Espero que o mais importante se salve!
Conhecemos a Vitoria, a enfermeira de 26 anos, com curso tirado em Dili. Ela ja trabalha com o Irmao ha 8 anos. Uma pequena joia no meio da montanha densa e humida. Um sopro leve de esperanca, de futuro, de continuidade. Tem dois filhos e diz que nao quer mais porque a vida esta dificil: uma bafurada de ensinada lucidez. Tem uma casa nova, construida com o proprio trabalho. Esta a espera da cozinha e de uma casa de banho, prometidas pelo Irmao portugues.
As nossas viagens à montanha carregam sempre, na parte de tras da carrinha, mil criancas que vamos descobrindo pelo caminho. Elas tambem nos descobrem, porque acenam, pedem boleia e confiam. De uniforme vestido e gelado na mao, uns palitos de cor embrulhados num saco transparente, sao a imagem nitida da presente simplicidade, em busca de um futuro melhor. As crianças sao tantas...e a imagem é linda de mais!